Harmonizar as diferenças no Kyudo

Um dos objectivos do Kyudo moderno é a harmonia entre os diferentes praticantes. É este objectivo que guia muitos movimentos executados no kyudo. A harmonia com o arco, com o alvo, com o local de treino, com os outros praticantes.

Até ao início do século XX eram vários os estilos e “escolas” Kyudo, cada uma ligada a determinadas tradições, famílias ou regiões do Japão. As escolas Ogasawara e Takeda, designadas escolas antigas, tinham a sua origem no século XII. A escola Heki, com mais de 10 ramos conhecidos, apareceu no século XV. A escola Yamato foi fundada nos século XVII. A escola Honda data do final do século XIX. Cada uma destas escolas tinha, diferentes abordagens ao tiro, com sequências de movimentos e de técnicas específicas.

A partir do final do século XIX, com o fim do Japão feudal, a crescente abertura da sociedade, e facilidade de deslocação e transportes, o Kyudo deixou de ser praticado dentre de círculos restritos ligados apenas a uma determinada escola/tradição e passou a ser praticado em conjunto por praticantes oriundos dessas diferentes escolas. Este facto levou a que, nas décadas de 1920 e de 1930 a Dai Nippon Butoku Kai (Associação Japonesa das Virtudes Marciais) tivesse promovido a uniformização da prática do tiro através de uma tentativa de standardização das diferentes formas de tiro. Esta primeira tentativa só viria a ser alcançada já em 1953 quando ANKF (Federação Japonesa de Kyudo), fundada em 1949, publicou o Kyudo Kiohon (Manual de Kyudo). Nele se estabeleceram os padrões modernos de forma, etiqueta e procedimento de tiro. São eles que têm guiado a evolução do Kyudo desde então, guiando o aperfeiçoamento de milhares de praticantes, dentro e fora do Japão.

As múltiplas diferenças existentes entre as diferentes escolas, podem sintetizar-se nos seguintes pontos:

  1. A abertura do arco, podia ser feita de três formas.
    • Shamen em que o arco é aberto lateralmente, depois levantado, e finalmente aberto completamente (escolas Heki).
    • Chikurin em que o arco é levantado diagonalmente da frente para o lado (escola Chikurin).
    • Shomen (tradicional) em que o arco é levantado em posição frontal, e depois aberto directamente até à abertura máxima (escola Ogasawara, derivada do tiro a cavalo, Yabusame).
    • Shomen (moderno) em que o arco é levantado em posição frontal, e depois aberto lateralmente até Daisan e depois até à abertura máxima (escola Honda, e actualmente, a forma predominante, dentro e fora do Japão).
  2. Estilo do tiro:
    • Reisha-kei, o estilo de tiro cerimonial. Distingue-se, pela forma de segurar as flechas na mão, pelo afastar os pés (Ashibimi), pela forma de colocar as flechas na corda, e pela colocação da mão direita na corda. Utilizado actualmente pelos praticantes da forma Shomen.
    • Busha-kei, o estilo de tiro guerreiro. Distingue-se, pela forma de segurar as flechas na mão, pelo afastar os pés (Ashibimi), pela forma de colocar as flechas na corda, e pela colocação da mão direita na corda. Utilizado pelos praticantes da forma Shamen, e por vários praticantes da forma Shomen.
    • Estes dois estilos derivam das antigas escolas, mas hoje em dia distinguem-se apenas por alguns detalhes, pouco perceptíveis para espectadores ou para principiantes.
  3. Tiro sentado e Tiro em pé:
    • Zasha, tiro sentado. O tiro em si é efectuado em pé mas os restantes movimentos preparatórios, de saudação, de espera, e de aproximação à linha de tiro são efectuados na posiçao de sentado (Kiza). É, actualmente, a forma padrão considerada standard.
    • Risha, tiro em pé. O tiro em si é efectuado em pé, bem como os restantes movimentos preparatórios, de saudação, de espera, e de aproximação à linha de tiro. Actualmente, é utilizado pelos praticantes que têm limitaçoes físicas sérias, ou problemas de saúde nos joelhos, tornozelos, ou pés.
    • O tiro Zasha (sentado) era tradicionalmente feito em espaços interiores ou com chão de madeira. O tiro Risha (em pé) era tradicionalmente realizado em espaços exteriores sobre a terra.

O Taihai (postura e movimentos do corpo) é o que permite aos praticantes executar os movimentos em conjunto em harmonia, ainda que executem o tiro com diferentes formas, e que tenham estilos diferentes. O Taihai regula e dá sentido a todos os movimentos que antecedem e que sucedem ao tiro. A respiração, o andar, o virar, o sentar, e o levantar são executados em harmonia, conferindo assim à prática do Kyudo um sentido de conjunto, em que a energia de cada um é parte da energia (mental e física) de todo o grupo.

O Taihai é o que permite a coexistência das diferentes formas de tiro no Kyudo actual.

No outono de 1989, homens e mulheres de oito países diferentes, com idades compreendidas entre os 15 e os 99 anos, reuniram-se no Budokan, em Tóquio, para celebrar o quadragésimo aniversário da Zen Nihon Kyudo Renmei (ZNKF, Federação Japonesa de Kyudo). A sua presença, e o facto de poderem atirar juntos em harmonia, constituem um testemunho vivo da força do Kyudo moderno. Mostra também que o tiro com arco japonês evoluiu verdadeiramente de um método para derrotar os inimigos para uma forma de promover a amizade duradoura e a paz mundial. Hideharu Onuma, Hanshi 9º Dan